Resumo
A violência é um fenômeno multifacetado e heterogêneo, intimamente ligado a transtornos mentais graves. Longe de ser um evento isolado, evidências recentes sugerem que a agressão patológica emerge de disfunções em circuitos cerebrais específicos, os quais são críticos para a regulação emocional e o controle inibitório. Consolidar e analisar criticamente as evidências científicas publicadas entre 2021 e 2025 sobre os correlatos neuroanatômicos, funcionais e de conectividade cerebral associados ao comportamento violento em diversas populações psiquiátricas. Uma revisão sistemática foi conduzida seguindo as diretrizes da declaração PRISMA 2020. A busca bibliográfica incluiu as bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science (janeiro de 2021 - 2025), priorizando estudos empíricos e meta-análises que empregaram técnicas de neuroimagem como Ressonância Magnética Estrutural (MRI), Ressonância Magnética Funcional (fMRI) e Imagem por Tensor de Difusão (DTI) para comparar sujeitos violentos e não violentos em quadros clínicos como esquizofrenia, psicopatia, Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). A qualidade metodológica e o risco de viés foram avaliados por meio das escalas Newcastle-Ottawa e AMSTAR-2. Devido à heterogeneidade metodológica dos trabalhos, optou-se por uma síntese narrativa. Foram analisados 15 estudos com qualidade metodológica variando de moderada a alta. Em nível estrutural, os dados mostram uma redução volumétrica consistente nos núcleos da amígdala (central e basal), no hipocampo e em subunidades do hipotálamo, juntamente com um afinamento cortical em áreas pré-frontais e no giro temporal superior. No plano funcional, delimitou-se uma "rede de agressão" que envolve a ínsula e o córtex do cíngulo, destacando uma hiperativação do estriado ventral diante de estímulos de recompensa. A análise de conectividade revelou desregulações na "Tríplice Rede" (modo padrão, saliência e executiva central) e uma conectividade funcional negativa entre o córtex pré-frontal dorsolateral e as estruturas límbicas. Ademais, a modelagem normativa confirmou desvios extremos na espessura cortical em pacientes com psicose violenta. O comportamento violento parece sustentar-se por uma base neurobiológica transdiagnóstica. Esta se caracteriza por um desequilíbrio entre sistemas límbicos hiperativos (geradores de impulsos) e sistemas corticais frontotemporais hipofuncionais (responsáveis pelo controle inibitório). Esses padrões de conectividade e morfometria se delineiam como biomarcadores promissores para a psiquiatria de precisão e para o design de estratégias de neuromodulação personalizadas.
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